Tag: Folclore paraense

Postagens com material do folclore paraense e/ou referência a ele.

  • Matinta

    Esse novo single é um instrumental feito com o pensamento na Matinta Pereira, famosa bruxa do norte do Brasil (pra quem não sabe!).

    OUÇA NA SUA PLATAFORMA PREFERIDA:

    A capa é da Luciana Leal. O rosto é, originalmente, um detalhe de uma estampa dela.

    Por sinal, em junho passado a Lu fez um pequeno e-book contando uma história diferente da Matinta – não como a velha agourenta, e sim como “uma pequena heroína muito esperta”. Vale à pena conhecer. Por isso eu pedi e ela me deixou colocá-lo aqui.

    E o vídeo da Matinta que preparei pro YouTube é cheio de excertos da partitura. Assista abaixo.

  • Pretinha d’Angola

    Pretinha d’Angola é uma dança tradicional do Pará. Dançada desde o tempo da escravidão, a coreografia tradicional, feita só por mulheres, acompanha e imita os gestos descritos nos versos, que também vêm dos antigos escravizados. É uma música que toquei aos montes, muito quando flautista do grupo para-folclórico Tanguru-Pará.

    Essa gravação foi feita em agosto de 2021. Ouça, curta e comente à vontade.

    OUÇA NA SUA PLATAFORMA PREFERIDA:

    A arte capa é de Luciana Leal. As imagens abaixo guardam um pouco do processo criativo dela.

    O songbook com transcrição das duas vozes (voz e baixo) está na aqui na Amazon. Acompanha as partes cavas e letra cifrada.

    Capa do songbook Pretinha d'Angola
    Pretinha d'Angola - Songbook (2021, Aracaju, Sergipe). Para voz e contrabaixo. Com grade, partes cavas, e letra com cifras.

    Quanto à letra, gravei ela da forma que gravei porque era assim que cantávamos no Tanguru-Pará. No entanto, dependendo do lugar ou do grupo a cantar, são comuns variações melódicas e nos versos. Cito aqui, a título de registro, duas estrofes que não gravei, mas que são comumente cantadas: “Arranca, arranca o meu carão / Meu carão tá duro, eu não posso arrancar“, usualmente cantada logo após “É assim que a cabra pula / É assim que a nega rebula“; e “As pretinhas d’Angola, oxalá / Preta ficou, oxalá / Quem matou, quem roubou, as pretinhas d’Angola oxalá ficou“.

    Bem, eis a letra tal como gravei:

    Oh, que preta é aquela que vem acolá?
    É pretinha d’Angola d’Umarizá

    É d’Umarizá ,é d’Umarizá
    É pretinha d’Angola d’Umarizá

    Atrepei pelo toco, desci pelo gaio
    Oh, morena, me apara senão eu caio

    Eu caio, eu caio, eu caio, eu caio
    Oh, morena, me apara senão eu caio.

    Eu vi andorinha, eu vi avoar
    Eu vi borboleta nas ondas do mar

    Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi
    Eu vi borboleta nas ondas do mar

    Olha a surucucu que quer te pegar
    No toco da cana do canaviá

    Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi
    No toco da cana do canaviá

    O que te fizeram? O que te fizeram?
    No toco da cana do canaviá

    Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi
    No toco da cana do canaviá

    Enrola boi na maresia
    Enrola boi-bumbá
    Eu quero ver a nega rolar
    Enrola boi-bumbá

    Enrola bem, enrola mal
    Enrola boi-bumbá
    Eu quero ver a nega rolar
    Enrola boi-bumbá

    Oh, me rala esse coco e me dá um pedaço
    Depois tira o leite e me dá o bagaço

    É assim que a cabra pula
    É assim que a nega rebula

    Mamãe pisa o milho; ó, filho, eu tô pisando
    A senhora pisa e eu vou peneirando

    Eu vou peneirando, eu vou peneirando
    A senhora pisa e eu vou peneirando

    Eu tava na minha casa, marimbondo me ferrou
    Eu tava na minha roça, marimbondo me ferrou

    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu
    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu

    Me ferrou na cabeça – Marimbondo sou eu
    Me ferrou no pescoço – Marimbondo sou eu
    Me ferrou na minha boca – Marimbondo sou eu
    Me ferrou no meu peito – Marimbondo sou eu
    Me ferrou na barriga – Marimbondo sou eu
    Me ferrou no gostoso – Marimbondo sou eu

    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu
    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu

    Laurimar leal (grande Mestre da arte plástica santarena) em uma entrevista em 2010 (feita no âmbito do projeto “Músicas de Domínio Público do Folclore Santareno“, que desenvolvi com o apoio de uma bolsa do Instituto de Artes do Pará), lembra que, até por volta de 1945, o carnaval santareno era animado pelo grupo de Pretinhas d’Angola, que brincavam e dançavam nas casas de particulares. E mais: ele traz à tona uma discussão sobre o termo “Umarizá”. É que, em Belém, os grupos cantam assim: “É Pretinha d’Angola do Umarizá“, dizendo ser uma referência ao bairro do Umarizal (hoje um dos mais caros da capital paraense, mas que, a maior parte do tempo, foi bairro popular com forte presença negra). Laurimar afirma que desde criança ouvia a música sendo cantado em Santarém com o verso “É pretinha d’Angola do Urumarizá“, referindo-se à antiga região da cidade chamada de Urumarizal, e que hoje é o bairro do Urumari. “Umarizá” seria uma adaptação e invenção posterior dos belemenses. A entrevista completa com Laurimar está aqui:

    E deixo aqui a transcrição de Pretinha d’Angola que fiz para o livro “Músicas de Domínio Público do Folclore Santareno | Livro de Partituras I – Melodias“, parte do mesmo projeto no qual entrevistei Laurimar.

  • Adeus, morena

    “Adeus, morena” é um carimbó de Mestre Lucindo, que venho tocando há mais de 20 anos, principalmente na flauta. Fiz agora uma nova gravação e um clipe com ele, usando a flauta doce contralto e um controlador midi. Assista aqui:

    O arranjo dessa gravação é, na verdade, todo baseado em um rondó de “Adeus, morena” que preparei quando morava em Ourém – PA, pra tocar na flauta junto com amigos num conjunto de pau e corda. A gravação abaixo é de uma dessas tocadas. Nela estamos eu, na flauta doce, Aristides Borges, no banjo, Alcimar Brasil, violão, Natalino Caratinga, percussão, e André Mixico, também na percussão. A gravação é caseiríssima, e feita no quintal de casa, em 2004.

    Então, pra essa gravação e filmagem de agora, o que fiz foi adicionar uma segunda voz no baixo pra minha antiga melodia. Eis aqui o arranjo.

    E um detalhe pra encerrar: em 2009 usei a melodia da terceira parte desse arranjo (essa que, na partitura aí de cima, começa na terceira página) na trilha sonora de “O Rapto do Peixe-boi“, como música de abertura. A música foi gravada com um conjunto de flauta doce, e tá aqui pra ser ouvida.

  • Mazurca

    Esta é uma interpretação minha da Mazurca tradicionalmente tocada na Marujada de Bragança/PA. É um arranjo para duas flautas, baixo e piano, acompanhados por uma base rítmica eletroacústica. Gravei em novembro de 2017 com duas flautas doces (soprano e contralto) e instrumentos virtuais. A arte da capa é de Luciana Leal.

    OUÇA NA SUA PLATAFORMA PREFERIDA:

    songbook desta gravação está disponível no site da Amazon.

    Capa do songbook Mazruca, de Fábio Cavalcante
    Mazurca - Songbook (2018, Aracaju, Sergipe). Para flauta doce soprano e contralto, piano,  marimba (clave de fá) e contrabaixo. Com grade completa e partes cavas.

    mazurca é uma dentre várias músicas tocadas e dançadas na Marujada, a festa em homenagem a São Benedito que acontece todo dezembro, desde 1798 – ano em que foi fundada, por negros escravos, a Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança. Um pouco do som dessa festa pode ser ouvido nessas duas postagens aqui do Blog FGC: Comissão das Colônias do Glorioso São Benedito de Bragança e Músicas da Marujada de Bragança – 2007.

    A primeira tem registros da passagem de uma comissão de “esmoleiros” pela cidade de Ourém/PA, em 2004 e 2006; e a segunda, gravações de retumbãoxote e chorado, tocados na festa de 2007.

    Trabalhei com essa mesma mazurca, ainda neste ano de 2017, num arranjo bem mais eletrônico. Foi para este vídeo gravado no Vila Aju (na época se chamava Aju Hostel), em junho passado, pouco tempo depois de ter chegado, para morar, em Aracaju.

    Tanto a arranjo o vídeo acima quanto desta nova gravação apresentada no início da postagem foram baseados neste arranjo para piano.

    Mazurca for piano solo - Capa do livro
    Mazurca (2017, Aracaju, Sergipe). Arranjo a 3 vozes para piano.
    Atualização em 22 de julho de 2021

    Ainda mexendo com esse tema (que eu adoro, deu pra sacar, né? 😉 ) fiz esse vídeo tocando-o num arranjo a duas vozes, bem simples (simplório mesmo!), feito mais para experimentar uns timbres novos. A partitura tá logo a seguir.

    Pra finalizar, vou deixar aqui transcrito o que o livro “Tocando a Memória: Rabeca“(de Maria José Pinto da Costa de Moraes, editado pelo Instituto de Artes do Pará em 2006), fala sobre essa mazurca da Marujada de Bragança, no capítulo “A Marujada e o Culto a São Benedito: Música e Dança” (páginas 63 e 64).

    Capa do livro Tocando a memória: RabecaA Mazurca é a quarta dança do ritual da Marujada e a primeira das danças de origem europeia. De tradição polonesa, pode ter a forma de dança ou canto. Notabilizou-se tanto entre compositores eruditos, como Chopin, quanto entre populares, como Ernesto Nazareth e Chiquinha Gozaga.

    Segundo Julio Bas (1947), possui forma binário de movimento moderado, em compasso ternário simples, apresentando o ritmo básico, no qual se observa o segundo tempo apoiado.

    Partitura de percussão da mazurca - Exemplo 1

    A Mazurca bragantina tem como característica regionalista o ritmo do tambor.

    Partitura de percussão da mazurca - Exemplo 2

    Seu andamento é o Allegro, com semínima a 160, na tonalidade de Ré Menor. A coreografia, inicialmente, tem os pares enfileirados formando um círculo, para onde se dirigem os marujos que se posicionam, movimentando-se em sentido horário. Com o desenrolar da música, as marujas giram em frente aos parceiros, mudando de posição para o braço esquerdo e retornando ao braço direito sucessivamente.

  • Cantos dos calouros indígenas da UFOPA

    No último dia 4 aconteceu uma recepção pros calouros indígenas da UFOPA, que terminou com um ritual realizado por eles mesmos na entrada do campus Tapajós. Os cantos que reuni nesta postagem foram gravados neste ritual.

    A primeira faixa é um “cântico de agradecimento”, comum a várias etnias. A segunda faixa (Surara e Ixé iandepá makú) é um canto borari, puxado por Adenilson Borari “Poró”, do DAIN/UFOPA (Diretório Acadêmico Estudantil Indígena). A terceira faixa é um canto Wai wai puxado pelos alunos Nilson Newsinu Wai Wai e Radson Tiotio Wai Wai; e no final tem um canto Munduruku, por Jair Boro Munduruku. Ouçam aí o som desses novos estudantes:

    Se quiser baixar as quatro faixas, clique aqui (arquivo Zip). E abaixo estão algumas imagens desse momento.