Tag: Santarém

Postagens sobre a música e a cultura da cidade de Santarém, no Pará.

  • Pretinha d’Angola

    Pretinha d’Angola é uma dança tradicional do Pará. Dançada desde o tempo da escravidão, a coreografia tradicional, feita só por mulheres, acompanha e imita os gestos descritos nos versos, que também vêm dos antigos escravizados. É uma música que toquei aos montes, muito quando flautista do grupo para-folclórico Tanguru-Pará.

    Essa gravação foi feita em agosto de 2021. Ouça, curta e comente à vontade.

    OUÇA NA SUA PLATAFORMA PREFERIDA:

    A arte capa é de Luciana Leal. As imagens abaixo guardam um pouco do processo criativo dela.

    O songbook com transcrição das duas vozes (voz e baixo) está na aqui na Amazon. Acompanha as partes cavas e letra cifrada.

    Capa do songbook Pretinha d'Angola
    Pretinha d'Angola - Songbook (2021, Aracaju, Sergipe). Para voz e contrabaixo. Com grade, partes cavas, e letra com cifras.

    Quanto à letra, gravei ela da forma que gravei porque era assim que cantávamos no Tanguru-Pará. No entanto, dependendo do lugar ou do grupo a cantar, são comuns variações melódicas e nos versos. Cito aqui, a título de registro, duas estrofes que não gravei, mas que são comumente cantadas: “Arranca, arranca o meu carão / Meu carão tá duro, eu não posso arrancar“, usualmente cantada logo após “É assim que a cabra pula / É assim que a nega rebula“; e “As pretinhas d’Angola, oxalá / Preta ficou, oxalá / Quem matou, quem roubou, as pretinhas d’Angola oxalá ficou“.

    Bem, eis a letra tal como gravei:

    Oh, que preta é aquela que vem acolá?
    É pretinha d’Angola d’Umarizá

    É d’Umarizá ,é d’Umarizá
    É pretinha d’Angola d’Umarizá

    Atrepei pelo toco, desci pelo gaio
    Oh, morena, me apara senão eu caio

    Eu caio, eu caio, eu caio, eu caio
    Oh, morena, me apara senão eu caio.

    Eu vi andorinha, eu vi avoar
    Eu vi borboleta nas ondas do mar

    Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi
    Eu vi borboleta nas ondas do mar

    Olha a surucucu que quer te pegar
    No toco da cana do canaviá

    Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi
    No toco da cana do canaviá

    O que te fizeram? O que te fizeram?
    No toco da cana do canaviá

    Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi
    No toco da cana do canaviá

    Enrola boi na maresia
    Enrola boi-bumbá
    Eu quero ver a nega rolar
    Enrola boi-bumbá

    Enrola bem, enrola mal
    Enrola boi-bumbá
    Eu quero ver a nega rolar
    Enrola boi-bumbá

    Oh, me rala esse coco e me dá um pedaço
    Depois tira o leite e me dá o bagaço

    É assim que a cabra pula
    É assim que a nega rebula

    Mamãe pisa o milho; ó, filho, eu tô pisando
    A senhora pisa e eu vou peneirando

    Eu vou peneirando, eu vou peneirando
    A senhora pisa e eu vou peneirando

    Eu tava na minha casa, marimbondo me ferrou
    Eu tava na minha roça, marimbondo me ferrou

    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu
    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu

    Me ferrou na cabeça – Marimbondo sou eu
    Me ferrou no pescoço – Marimbondo sou eu
    Me ferrou na minha boca – Marimbondo sou eu
    Me ferrou no meu peito – Marimbondo sou eu
    Me ferrou na barriga – Marimbondo sou eu
    Me ferrou no gostoso – Marimbondo sou eu

    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu
    Ai, Jesus, meu Deus, marimbondo sou eu

    Laurimar leal (grande Mestre da arte plástica santarena) em uma entrevista em 2010 (feita no âmbito do projeto “Músicas de Domínio Público do Folclore Santareno“, que desenvolvi com o apoio de uma bolsa do Instituto de Artes do Pará), lembra que, até por volta de 1945, o carnaval santareno era animado pelo grupo de Pretinhas d’Angola, que brincavam e dançavam nas casas de particulares. E mais: ele traz à tona uma discussão sobre o termo “Umarizá”. É que, em Belém, os grupos cantam assim: “É Pretinha d’Angola do Umarizá“, dizendo ser uma referência ao bairro do Umarizal (hoje um dos mais caros da capital paraense, mas que, a maior parte do tempo, foi bairro popular com forte presença negra). Laurimar afirma que desde criança ouvia a música sendo cantado em Santarém com o verso “É pretinha d’Angola do Urumarizá“, referindo-se à antiga região da cidade chamada de Urumarizal, e que hoje é o bairro do Urumari. “Umarizá” seria uma adaptação e invenção posterior dos belemenses. A entrevista completa com Laurimar está aqui:

    E deixo aqui a transcrição de Pretinha d’Angola que fiz para o livro “Músicas de Domínio Público do Folclore Santareno | Livro de Partituras I – Melodias“, parte do mesmo projeto no qual entrevistei Laurimar.

  • Nheengatu (Canções na Língua Geral Amazônica)

    Em janeiro de 2016 fui convidado pelo professor Florêncio Vaz para gravar os alunos do Curso de Nheengatu da Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa. O resultado foi o álbum “Nheengatu – Canções na Língua Amazônica Geral”, com 18 canções na língua indígena, todas cantadas pelos próprios alunos, muitos dos quais são professores nas suas aldeias e comunidades.

    Algumas faixas são versões de canções tradicionais e populares, como “Parabéns pra você” (Kwe katú indé arama, faixa 14), “Cabeça, ombro, joelho e pé” (Mira pira, faixa 3), e o Hino Nacional Brasileiro (faixa 12). Outras são de compositores que escrevem em nheengatu, como Luís Alberto “Çairé”, Ademar Garrido e Miguel e Maria Baníwa. “Índio Civilizado”, música de Juvenal Imbiriba, que eu já havia gravado no disco “Carimbó do Arapiuns” (ouça aqui), foi traduzida nas aulas de julho de 2016, e cantada pelos alunos sob o título Maku ukuá wã ara (é a faixa 17), e teve a participação do próprio Juvenal.

    A publicação de “Nheengatu – Canções na Língua Amazônica Geral” no YouTube vem acompanhada das letras (em Nheengatu) e traduções (em português), correndo em sincronia.

    Com o auxílio dos professores de nheengatu Miguel Baniwa, Maria Baniwa, Ciça Veiga e Antônio Neto, também foi preparado este livreto com todas as letras e traduções do álbum.

    Nheengatu - Canções na Língua Geral Amazônica (2016, Santarém, Pará). Letras do disco homônimo, produzido com os alunos do Curso de Nheengatu da Universidade Federal do Oeste do Pará - Ufopa.

    As gravações aconteceram entre janeiro e junho de 2016, no auditório da unidade Tapajós da Universidade Federal do Oeste do Pará, e no Centro Indígena Maíra, em Santarém. Eis imagens desses dias.

    O professor Florêncio Almeida Vaz Filho, coordenador do Curso de Nheengatu, escreveu um texto de apresentação bastante informativo, que veio no encarte do disco, e que aqui transcrevo para que tenham uma visão mais precisa deste projeto.

    “O CD “Nheengatu – Canções na Língua Geral Amazônica” é um dos frutos do processo de reorganização dos povos indígenas e valorização da sua identidade cultural, que envolve 70 aldeias na região do baixo rio Tapajós, no oeste do estado do Pará. Outros frutos são o documentário “Terra dos encantados: os povos indígenas no baixo rio Tapajós”, de Clodoaldo Correa (disponível: www.youtube.com/watch?v=sZUz2I8j36s), e o livro didático “Nheengatu Tapajowara”. CD, filme e livro foram produzidos sob nossa coordenação e graças ao apoio dos Frades Franciscanos por meio da Missão Central dos Franciscanos (MZF).

    O Nheengatu, ou Língua Geral Amazônia (LGA), era falado amplamente pelos indígenas na região até meados do século XIX. Praticamente proibido no contexto da repressão que se seguiu à Guerra da Cabanagem (1835-1840) e, depois, preterido pela imposição da língua portuguesa, o Nheengatu quase desapareceu. Curt Nimuendaju (em “Os Tapajó”, Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, 10, 1949, p. 98), que esteve em Santarém e arredores entre 1923 e 1926, sobre a Língua Geral escreveu que “[…] até hoje em Alter do Chão não está ainda completamente extinta”. Se em um povoado tão próximo da cidade de Santarém o Nheengatu mantinha-se vivo ainda naquela década, podemos supor que era ainda mais falado nos povoados mais afastados da influência urbana. Mas, ao longo do século XX, o processo de esquecimento continuou, e restaram apenas frases e palavras repetidas quase sempre pelas senhoras mais idosas.

    Quando os moradores das comunidades ribeirinhas voltaram a se identificar como indígenas, em 1998, e se deram conta de que careciam de uma língua indígena, foi instantânea a associação com a antiga Língua Geral. E iniciaram com muito gosto o que chamavam de “resgate da nossa língua”, processo que se tratava, na verdade, de uma revalorização do Nheengatu, que continuava sendo utilizado, em geral, de modo irrefletido. Por exemplo, nos nomes de lagos, igarapés, animais, árvores, frutos, alimentos e instrumentos de trabalho. Devemos registrar que as aldeias do povo munduruku no baixo rio Tapajós também logo iniciariam o seu processo de aprendizado da língua munduruku.

    Em janeiro de 1999, o Grupo Consciência Indígena (GCI), com apoio dos Frades Franciscanos, realizou a primeira oficina de Nheengatu em Santarém, ministrada por Celina Cadena Baré, indígena da região de São Gabriel da Cachoeira, rio Negro (AM). Nos anos seguintes, em conjunto com o Conselho Indígena dos rios Tapajós e Arapiuns (CITA), o GCI trouxe novamente Celina Cadena Baré e outros indígenas do rio Negro, que ministraram cursos e viajaram pelas aldeias nos rios Tapajós e Arapiuns, ensinando o Nheengatu. Foi o caso de Alberto (Beto) Baniwa e Vitor Cecílio Baniwa.

    E, assim, o Nheengatu foi voltando a ser usado na região, dando sentido a palavras e expressões que já eram usadas e fazendo novas conexões com o passado. Desde o início deste processo, os indígenas demonstraram gosto pelos cantos em Nheengatu, que eram muito usados nos seus rituais públicos. Este é o caso de “Xibé puranga” (que veio do rio Negro) e “Se anama” (criada no rio Tapajós), antigos sucessos no baixo rio Tapajós.

    Aprender o Nheengatu parecia aos indígenas como o resgate do passado, no sentido da sua origem indígena ou até mesmo na busca de sua identidade. Este desafio ficou ainda mais urgente depois da Marcha Indígena dos 500 Anos (em abril de 2000), em Porto Seguro (BA), quando os indígenas do baixo Tapajós ouviram outros líderes falar e proferir discursos nas suas línguas indígenas maternas. Por isso, ao voltar da Bahia, destacaram ainda mais o aprendizado do Nheengatu como uma ação prioritária. E assim foi nos anos seguintes.

    Desde 2007, com a implantação da educação escolar indígena pela Prefeitura de Santarém, seguida pelas prefeituras de Aveiro e Belterra, os indígenas reivindicaram o ensino das línguas indígenas nas escolas municipais, no que foram atendidos em 2010. E, então, surgiu a necessidade de capacitação formal para os professores de Nheengatu que começaram a atuar nessas escolas. Já as escolas munduruku no baixo Tapajós também iniciaram aulas da língua munduruku com professores indígenas munduruku vindos das aldeias do mé- dio e alto rio Tapajós.

    Foi nesse contexto que surgiu o Curso de Nheengatu, oferecido pelo GCI e pela Diretoria de Ações Afirmativas (DAA) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), como um curso de extensão dessa instituição. As aulas ocorrem no Centro Indígena Maíra, da Custódia São Benedito da Amazônia (Frades Franciscanos), importante parceira do Curso de Nheengatu. Outros apoiadores do curso são: CITA, Grupo de Pesquisa Leetra (USP/UFSCar), Rádio Rural de Santarém e Pró-Reitoria da Cultura, Comunidade e Extensão (Procce/Ufopa).

    O Curso de Nheengatu iniciou em julho de 2014, ministrado pelo professor Agripino Nogueira Neto (do povo Baré). Em seguida, os professores mestres Antonio Neto e Edilson Melgueiro (este do povo Baniwa) passaram a contribuir também com o curso. Foram os alunos dessas primeiras turmas de 2014 e 2015 que produziram e gravaram as músicas contidas neste CD, em um processo criativo que associou seus conhecimentos tradicionais com o aprendizado do Nheengatu. Da mesma forma e ao mesmo tempo, escreveram o livro “Nheengatu Tapajowara”. Ambos projetos foram desenvolvidos com o apoio da Missão central dos Franciscanos (MZF), que apoiou também a produção do filme “Terra dos encantados”.

    A maior parte das músicas são criações originais dos próprios alunos do Curso de Nheengatu, como “Reiuri iké”, “Kuakatu reté” e “Tarubá nheengarisá”. Outras são versões de músicas populares, como “Kuekatu indé arama” (Parabéns pra você) ou regravações de músicas que já eram conhecidas e muito usadas nos rituais e outras atividades do Movimento Indígena, como “Kwa yané rendawa”, “Maku ukuá wã ara” e “Apigá marupiara”. Mesmo essas músicas passaram por um processo de reapropriação ou tradução durante o Curso de Nheengatu, o que justifica a sua inclusão neste CD.

    E, na sua fase final (2016-2017), o Curso de Nheengatu foi ministrado pelos professores mestra Patrícia Veiga, Miguel Piloto e Maria Bidoca (estes dois últimos do povo Baniwa), que continuaram usando as músicas como um recurso pedagógico para o aprendizado da língua. Umas das marcas desse curso foi sempre garantir a presença de professores indígenas falantes do Nheengatu (que vem do rio Negro, no Amazonas) e acadêmicos especialistas no ensino da língua Nheengatu. Esses professores vêm de São Paulo e são ligados ao Grupo de Pesquisa Leetra. Este CD é uma produção coletiva de alunos e de todos estes professores indígenas e não indígenas. É o resultado de muita colaboração e criatividade dentro deste rico processo de aprendizado do Nheengatu.

    O Curso de Nheengatu tem carga horária de 360 horas, dividida em quatro módulos de 90 horas cada, que são desenvolvidos em janeiro e julho. A primeira e a segunda turma se formaram em 2016. As duas últimas turmas se formarão em julho de 2017. Os alunos, na sua maioria, são professores indígenas que já atuavam ou passaram a atuar nas escolas indígenas na região, com um impacto altamente positivo no processo de reafirmação identitária indígena que ocorre na região.

    Por fim, ofertamos este CD, como um fruto fresco e saboroso, aos estudantes do Curso de Nheengatu que, ao mesmo tempo que aprendiam, produziam o livro “Nheengatu Tapajowara” e o CD “Nheengatu – Canções na Língua Geral Amazônica”. Aqui estão suas mãos, sua autonomia criativa e suas pegadas, que ficarão para a história e que ninguém poderá apagar. Vocês são os autores de fato deste livro. Kuekatu reté (obrigado) também aos mbuesara itá (professores e professoras) e às pessoas e instituições que apostaram neste sonho, que agora é realidade, ou melhor, é música.”

    PROF. DR. FREI FLORÊNCIO ALMEIDA VAZ FILHO
    (Programa de Antropologia e Arqueologia – PAA/Ufopa)
    Coordenador do Curso de Nheengatu

    Capa do álbum Nheengatu (Canções na Língua Geral Amazônica)
    Arte da capa do álbum Nheengatu (Canções na Língua Geral Amazônica), por Luciana Leal.
  • Saúde e alegria sem corona

    Mestre Chico Malta, de Alter-do-chão, compôs esta “Saúde e alegria sem corona” para a campanha #ComSaúdeEAlegriaSemCorona, do Projeto Saúde e Alegria (PSA), voltada para combater a proliferação da pandemia da Covid-19 na região do Baixo Amazonas. A música foi gravada agora no meio de maio, com a voz e o violão do Chico, em Santarém, e os demais instrumentos meus, em Aracaju. Curta o resultado nesse songvideo que preparei com a letra e cifras.

    O single, entre outras utilizações no programa do Projeto Saúde e Alegria, serviu de trilha para esta singela animação produzida pelo PSA.

    Se quiser saber um pouco mais de Mestre Chico, visite esta sua página do site FGC Produções. Lá, além de informações gerais, estão, na íntegra, dois dos seus discos que produzi – Nas Entranhas da Selva, de 2010; e Movimento de Roda de Curimbó, de 2012. Tudo da pesada! 😉

  • Design de Superfície na Amazônia

    Aqui estão produtos do projeto “Design de superfície na Amazônia: referências visuais da iconografia arqueológica do oeste do Pará no desenvolvimento de estampas têxteis” da Luciana Leal, contemplado pela 13ª edição da Bolsa de Criação, Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística do Instituto de Artes do Pará (IAP) – 2014.

    O projeto foi idealizado com a intenção de pesquisar referências visuais em peças arqueológicas dos índios Tapajós, da região oeste do Pará, a fim de produzir estampas contínuas para aplicação em tecido. No dia 9 de dezembro rolou o vernissage da exposição no Instituto de Artes do Pará, em Belém, com 20 estampas impressas em tecido; quadros estampados; a publicação online de um catálogo com as estampas do projeto; relato de experiência da Luciana; bate-papo e uma tocada minha com controladores.

    O vídeo a seguir é ilustrado com fotos e outras imagens produzidas no projeto, e o áudio dele foi o gravado na noite do vernissage.

    Todas as estampas criadas tiveram como inspiração as peças arqueológicas do Laboratório Curt Nimuendaju, da Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA, que estão reunidos no catálogo “Design de Superfície na Amazônia – Estampas Tapajônicas”.

    O álbum abaixo é o registro em fotos da noite de abertura da exposição.

    E a seguir tem a tocada minha que rolou após o bate-papo com a Luciana. A música é um arranjo pro Allemande do Solo para Flauta Transversal de Bach, programado e executado num Maschine; e foi feita pensando num desfile com peças de vestuário confeccionadas a partir dos tecidos da exposição.

    Se quiser acompanhar o trabalho da Luciana, tem mais coisas no perfil dela no Flickr; e para mais informações sobre o projeto, o email pra contato é [email protected].

    Cartaz da exposição Design de Superfície na Amazônica
    Cartaz
  • Acervo Sonoro de Emir Bemerguy

    O poeta Emir Bemerguy (Fordlândia, 1933 – Santarém, 2012), demostrou sua paixão por Santarém de muitas formas, e uma delas foi fazendo sistematicamente registros sonoros dos artistas locais. Emir gravou uma centena de fitas K7 ao longo das últimas 5 décadas, com diversos músicos e personalidades santarenas. É um material fantástico, de grande importância para os interessados na cultura amazônica, e na de Santarém em particular. Tive o prazer de ouvir uma parte dessas fitas, e, com a oportunidade de digitalizá-las, compartilho agora essas gravações aqui no blog.

    As fitas têm registros do violonista Moacir Santos, do tocador de cavaco Laudelino Silva, do compositor e pianista Wilson Fonseca, do radialista Osmar Simões, do historiador Paulo Rodrigues dos Santos, entre muitos outros. Têm também leituras que o poeta fez da sua própria obra, entre poemas e crônicas, muitas delas transmitidas pelas rádios da cidade.

    Serenata com violões em Santarém, Pará.
    Uma serenata doméstica na casa de Braz Coimbra, com Emir ao violão (o terceira a partir da esquerda). (Foto do blog Saudade Perfumada)

    Ressalto que muitas dessas gravações são caseiras e o clima é bastante informal. Na maioria da vezes, ele próprio apresenta os convidados, tece comentários sobre as músicas, e puxa a conversa adiante.

    Selecionei para essa postagem 16 fitas do acervo sonoro do poeta. O primeiro K7 é com o violonista Moacir Santos, gravado em 15 de março de 1976.

    Capa de Fita Cassete (K7) do acervo de Emir Bbemerguy
    Capa do K7 Moacir Santos (Violão e conversa c/ Emir) – 15/03/1976

    Na próxima fita, o Coral de Santarém, com 150 integrantes, se apresenta no programa radiofônico “Domingo Mobral”. Ao piano está o maestro Wilson Fonseca e na regência, Wilde Dias Fonseca. Apresentado por Emir Bemerguy, o evento abre com a crônica “Santarém: ontem, hoje, amanhã”, criticando o modelo de desenvolvimento das cidades brasileiras. Ouça aqui:

    A seguir, uma apresentação do cantor Edenmar da Costa Machado “Machadinho“, acompanhado pelo cavaco de Laudelino Silva, numa edição do programa “Poemas e canções”, da rádio educadora, em 11 de fevereiro de 1968. Esta fita estava, infelizmente, bastante deteriorada, e mesmo com tratamento de áudio, o som continuou com muito chiado.

    No final da década de 70 Laudelino Silva mudou-se para Belém, e Emir propôs gravar um bate-papo recheado de execuções instrumentais, a fim de registrar a partida do tocador de cavaquinho de Santarém (que neste dia tocava um bandolim). É a gravação que se ouve aqui, de 3 de agosto de 1979.

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy
    Capa do K7 Laudelino e Emir (3/8/1979). Regravação: 29/7/1994.

    Em seguida temos uma reunião na casa de Emir, com MachadinhoLaudelino, e seus filhos Lúcio e Ércio, em 6 de julho 1988. O objetivo, segundo o anfitrião, era “passar alguns momentos tocando violão e bandolim, revivendo instantes preciosos e mágicos que se foram”.

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy.
    Capa do K7 Machadinho, Laudelino, Emir, Emirzinho, Lúcio, Ércio (06/07/1988)

    Nas próximas 3 fitas temos: o compositor Wilson Fonseca “Isoca”, ao piano, interpretando 22 das suas composições, numa tocada em 23 de outubro de 1994. Em seguida ouvimos 11 músicas ao som do órgão de  Agostinho Fonseca, filho do maestro Isoca; e depois pai e filho tocam juntos.

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy, com músicas do maestro Wilson Fonseca, de Santarém, Pará.
    Capa do K7 Isoca (Canções próprias) 1987. REG: 23/10/1994.

    Agostinho Fonseca:

    “Isoca” e “Tinho”:

    A fita seguinte é uma coleção de faixas com a participação do radialista Osmar Simões (1918 – 1984), um dos fundadores da Rádio Rural de Santarém. São gravações diversas: entre elas temos uma transmissão radiofônica de uma apresentação do Coral de Santarém (faixas 1 a 3); uma entrevista com o historiador Paulo Rodrigues dos Santos, de 1968 (faixas 7 e 8); e a última crônica no rádio de Osmar Simões, de 4 de julho de 1984, sobre a inauguração da rádio rural de Santarém.

    As próximas 7 fitas nos trazem a fala do próprio Emir Bemerguy.

    Na primeira ele recita 13 dos seus poemas, numa gravação de julho de 1972. Os próximos dois K7 são de crônicas, lidas regularmente no microfone da rádio tropical de santarém (a primeira é de 1987; a segunda, de 1990).  Depois temos mais duas fitas (a primeira de 72, a segunda de 76) com várias dezenas de poemas recitados. Como são muitos poemas, recomendo ler os títulos deles nas imagens escaneadas das “capinhas”, que estão sobre cada player. E em seguida temos mais duas fitas, gravadas com um depoimento que o poeta deu para o historiador Cristovam Sena, no ano de 1992 (a primeira parte foi feita em 25 de novembro daquele ano, e a segunda, em 17 de dezembro).

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy, recitando poemas santarenos.
    Capa do K7 Poemas Santarenos de Emir Bemerguy (8/7/1972)

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy, com crônicas do poeta santareno.
    Capa do K7 Crônicas de Emir Bemerguy – 20/06/1987

    Crônicas de Emir, vol. II:

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy, com poemas recitados.
    Capa do K7 Meus poemas (I). (13/8/72)

    Capa de fita cassete (K7) do acervo de Emir Bemerguy.
    Capa do K7 Meus poemas (II) (29/2/76)

    Depoimento de Emir para Cristóvão Sena, parte I:

    Depoimento de Emir para Cristóvão Sena, parte II:

    Vou finalizar a postagem com uma gravação de 1968. Nela, o Emir, ao lado do amigo Arnaldo de Freitas Braga, canta para este último três músicas: Extremo Consolo (Emir Bemerguy / Wilson Fonseca), Valentia e Volta (essas duas com letra e melodia de Emir). A fala final do Arnaldo sintetiza muito bem o sentimento que tive ao ter acesso ao acervo sonoro do Emir Bemerguy, e por isso a coloquei para fechar essa coleção. Ele agradece ao poeta pelo privilégio de gozar da sua amizade e pela sua sensibilidade. Essa mesma que o fez ver a importância desses registros para a posteridade (e ainda mais num país onde o descaso com a memória é um princípio), e aos quais o tempo vai conferir cada vez mais valor.